sexta-feira, 24 de maio de 2013

Artigo - A Docência Universitária no Atual Contexto Histórico-Sócio-Econômico

OLIVEIRA, Marcia Silva de; ALVES, Elioenai Dornelles; SERPA, Maria da Glória Noronha. A docência universitária no atual contexto histórico-sócio-econômico. FACTUCiência, Unaí: FACTU, ano VII, vol. 13, ago-dez. 2007, p. 107-115.

Artigo Original

A Docência Universitária no Atual Contexto Histórico-Sócio-Econômico

The University Teaching in Actual Historical-Socio-Economic Context

Marcia Silva de Oliveira
Elioenai Dornelles Alves
Maria Glória Noronha Serpa
Resumo

As transformações ocorridas no ensino superior trouxeram problemáticas e preocupações a esse setor, no que diz respeito às formas de ensinar e se posicionar diante da heterogeneidade de alunos e de professores. A formação/preparação para a docência universitária, frente a essas transformações, também tem sido objeto de atenção. À postura do professor em sala de aula também tem sido dispensada certa atenção por parte de alguns poucos pesquisadores, relacionadas às mudanças paradigmáticas, assim como sua visão do contexto institucional e de como este professor nele se insere. A visão contextualizada das práticas pedagógicas é referenciada pelos autores no seu ambiente de trabalho, a sala de aula universitária. A partir dessa visão chegou-se à conclusão que permitir a aproximação é fato importante para aprendermos quem são nossos alunos, o que esperam de nós docentes universitários e como podemos nos tornar profissionais professores e não professores profissionais.

Palavras-chave: ensino superior, docência universitária, sala de aula, mudanças paradigmáticas

Abstract

The changes in higher education brought problems and concerns in that sector, with regard to the ways of teaching and position itself ahead of the heterogeneity of pupils and teachers. The training/preparation for university teaching, front to these changes, has also been the object of attention. The attitude of the teacher in the classroom has also been provided some attention from a few researchers, related to changes paradigmatic, as well as their vision of the institutional context and how it fits into this professor. The vision context of teaching practices is referenced by the authors in their working environment, the classroom university. From this vision came to the conclusion that allow the rapprochement is really important for our students learn who they are, what is expected of us academics and how can we make teachers professionals and not professional teachers.

Keywords: higher education, university teaching, the classroom, paradigmatic changes


Introdução

Uma mudança de paradigmas

Os tempos modernos são marcados por mudanças profundas em todos os níveis e contextos: social, cultural, político, econômico, ético e profissional e que incidem nas instituições sociais e, portanto, de forma enfática na escola. Até pouco tempo, percebiam-se essas transformações de forma incisiva nos professores e alunos do ensino fundamental e médio, mas a explosão da freqüência dessas mudanças no ensino superior, trazendo novos públicos à Universidade, faz também com que esse setor do sistema de educação não fique imune a essas problemáticas. 
Preocupações de “Como ensinar no ensino superior?”, “Como encarar o novo perfil do aluno universitário?”, entre outras, permeiam o pensamento de todos os atores das Instituições de Ensino Superior; ou pelo menos deveriam.A grande preocupação no ensino superior tem sido com o próprio ensino, na sua expressão mais simples: o professor entra em sala de aula para transmitir informações e experiências consolidadas ao longo de seus estudos e atividades profissionais, na expectativa de que o aluno as retenha, absorva e reproduza por ocasião das verificações de aprendizagem.   
Educar não se limita a repassar informações ou mostrar apenas um caminho, aquele caminho que o professor considera o mais correto, mas é ajudar a pessoa a tomar consciência de si mesma, dos outros e da sociedade. É saber aceitar-se como pessoa e saber aceitar os outros. É oferecer várias ferramentas para que a pessoa possa escolher entre muitos caminhos, aquele que for compatível com seus valores, sua visão de mundo e com circunstâncias adversas que cada um irá encontrar; entretanto, ainda se encontra muita resistência por parte de alguns docentes.  
Atualmente, muitos professores ainda estão em fase de reconhecimento e aceitação de um novo tipo de relacionamento entre professor e aluno. Poucos são os professores que se aventuram nesse desconhecido universo das relações humanas entre docentes e discentes. Poucos são os que têm coragem de quebrar o paradigma mítico da supremacia do mestre em relação ao seu discípulo; admitem não ser detentores de “todo” o conhecimento de sua ciência específica, e dividem com seus alunos a busca de um mesmo conhecimento ou aprimoramento deste sem, no entanto, sentirem-se incapazes ou inferiorizados.  
O estigma criado durante séculos sobre esse tipo de relação, que deveria ser totalmente dispensável, hoje cai por terra, mas deixa lacunas nas mentes de alguns professores da forma pela qual poderiam ser se houvesse uma melhor e maior observação de seus alunos individualmente e uma maior interação com o grupo. Uma vez despidos do estigma da não-relação com seus alunos, observam que sua postura, a forma como se apresentam profissionalmente e, a presença de “humanidade” na relação com eles influem de maneira extremamente positiva nesse processo.
Observando mais de perto seu ambiente de trabalho e, conseqüentemente, os nichos presentes nele, encontrarão uma resposta muito mais rápida e positiva à apreensão do conteúdo, ou seja, o processo ensino-aprendizado torna-se mais eficiente e eficaz (FREIRE, 1996; OLIVEIRA, 2004).

O que é ser Docente Universitário

O docente é um pesquisador que tem (ou deveria ter!) o domínio dos fundamentos teóricos e metodológicos do seu campo de conhecimento. Deste modo, o pressuposto adotado é o de que a docência e a pesquisa devem ser assumidas como uma missão e uma vocação voltadas para a produção e a facilitação do conhecimento.
A docência é entendida, enquanto carreira profissional, como sendo exercida com dedicação exclusiva, em tempo integral, o que qualifica e potencia o saber produzido. Por conseqüência, a docência formadora é baseada na pesquisa de alto padrão enquanto uma experiência metódica.
Depois da análise cuidadosa das mudanças paradigmáticas na educação, das opiniões controversas de alguns autores e, em sua maioria das inferências convergentes de alguns outros observa-se que a docência universitária é uma extensão contínua do conhecimento adquirido ao largo de um grande período acadêmico aproveitado, na maioria das vezes, mais no campo do ensino que da pesquisa (SANTOS, 2000).
Segundo PIMENTA et al. (2003), a docência, entendida como o ensinar e o aprender, está presente na prática social em geral e não apenas na escola. Em qualquer âmbito em que o pesquisador/profissional atue, exercerá uma ação docente. Isso aponta para a formação do futuro profissional, de qualquer área, como educador, como comunicador.
Nos dias atuais, nós docentes universitários, temos uma visão muito mais abrangente da situação ensino/pesquisa em nossas salas de aula e em nossas aulas “práticas”. Essa visão é um exercício instigante que nos faz refletir sobre o seu sentido e sobre como se pode ascender a níveis em que predominem a criatividade e a reflexão; contribui para a compreensão, numa outra perspectiva, da relação entre teoria e prática (VÁZQUEZ, 1977).
Isso se deve, ao fato de estarmos mais preparados para enfrentar às perguntas cada vez mais capciosas de nossos alunos que, antigamente, limitavam-se a ser os passivos do aprendizado, simplesmente admitindo como certo tudo que lhes era transmitido pelo docente (CHAUÍ, 2001).   Com essa mudança procuramos cada vez mais nos auto-avaliar e aprendermos mais sobre nossa ciência e prática específica e sobre outras (ZABALZA, 2004 apud DAVIES, 1998). As formas específicas de práxis, nada mais são do que formas concretas, particulares, de uma práxis total humana, graças à qual o homem como ser social e consciente humaniza os objetos e se humaniza a si próprio" (VÁZQUEZ, 1977).
Não devemos esquecer que uma grande parcela dos nossos alunos (e a maioria daqueles que se engajam no processo de aprendizagem) vive em uma realidade muito diferente da que foi vivida por nós enquanto alunos: meios de comunicação cada vez mais acessíveis, informação em tempo real, captação de imagens via internet e muitas outras facilidades ajudam no aprendizado mais completo das disciplinas ministradas em sala de aula. 
Deste ponto partimos para outros dois fatores de suma importância na carreira de um docente universitário: a qualidade de sua formação acadêmica e de seu conhecimento (construção social e contextualizada) e, a forma como põe esse conhecimento em prática (docência e pesquisa).
Devemos observar que uma boa formação acadêmica induz a um grau de conhecimento elevado, e ambos, devem contribuir para uma boa prática de ensino e pesquisa (IMBERNÓN, 2006). Teoricamente. Não há dúvida de que a qualidade está ligada à formação, já que ela é, certamente, a principal condição para que se progrida na qualidade (ZABALZA, 2004).
Nossos valores enquanto docentes universitários devem permear o contexto em que a instituição de ensino da qual fazemos parte se insere, sem colocarmos de lado nossos valores pessoais.  Uma vez que fazemos parte da sociedade de conhecimento de uma instituição onde o público alvo é receptivo à articulação ensino/pesquisa, temos que canalizar nossa atenção ao aprimoramento do vínculo entre elas, devido serem interligadas e aproximarem pessoas, instituições e comunidade.
Por outro lado, temos que nos voltar também para a capacitação desse docente universitário que na maioria das vezes não está preparado para essa função. Isso se explica, sem dúvida, devido à inexistência de uma formação específica como professor universitário (PIMENTA & ANASTASIOU, 2002 apud BENEDITO, 1995).
Alguns destes ainda estão no tempo do ensino unidirecional, sem questionamentos e sem aplicação prática.  Os cursos que visam prover essa capacitação são ainda, em sua maioria, elitistas; o que leva muitos profissionais que procuram essa capacitação a se voltarem às instituições particulares e, os menos afortunados a se tornarem auto-didatas, prejudicando, a longo prazo, o processo de ensino-aprendizagem nas instituições de ensino superior.

A postura do docente universitário e a relação com seus alunos

Ser docente universitário nos dias atuais é estar em constante atualização – transformação da sociedade, de seus valores e de suas formas de organização e trabalho e, ao avanço exponencial da ciência (PIMENTA & ANASTASIOU, 2002) –,  e não mais se atendo à leitura de um ou dois livros por ano.
Manter-se aberto às mudanças políticas intra-institucionais que afetam diretamente a sua postura com relação ao dueto ensino/pesquisa e, estar atento às mudanças das políticas públicas que irão afetar diretamente seu regime de trabalho, sem deixar esse fato extrapolar para dentro da sala de aula.
É manter contato estreito com seus alunos participando a eles o processo da mudança institucional como um todo, aproveitando esse contato para observar que tipo de influência (contexto social) exerce, se positiva ou negativa, e aprender com essa interação (FREIRE, 1996).
É, cada vez mais, tentar se aprimorar e se integrar intensamente na sociedade do conhecimento; estimulando diretamente seus alunos a procurarem meios de atualização dinâmicos (procurar bibliotecas, por exemplo) sempre que houver tempo, evitando assim, pesquisas cibernéticas na sua totalidade.
Ter participação ativa, junto com seus pares, das reuniões que visem à melhoria da qualidade do ensino e da pesquisa, dentro e fora da sua instituição de origem. É estar aberto a questionamentos sobre sua disciplina específica, por parte dos seus alunos, e procurar discutí-los de forma mais abrangente possível; ser acessível aos alunos, o máximo possível (OLIVEIRA, 2004). Em suma, é ter coragem de vivenciar e participar ativamente dos processos que envolvem o ensino e a aprendizagem.

Discussão

Ao analisarmos o contexto social, observamos que com as mudanças aceleradas e os avanços tecnológicos, a crise econômica, a organização do trabalho, as inovações produzidas nas mais diferentes áreas e, o acentuado processo de globalização a concepção de docência universitária vem sofrendo alterações, levando a um maior destaque para a produção qualificada do que quantificada dos docentes universitários.
Esses são importantes fatores na definição do espectro profissional e contribuem para o desenvolvimento de incertezas cada vez mais constantes (VEIGA, 2005). As instituições de ensino superior têm ministrado cursos de capacitação para seus docentes, visando uma melhor adequação destes à nova universidade que surge e aos novos tipos de alunos. 
A formação deveria dotar o professor de instrumentos intelectuais que possam auxiliar o conhecimento e interpretação das situações complexas com que se depara (IMBERNÓN, 2004). Entretanto, isso não é observado em nenhum momento desse processo formativo. Com isso, o próprio processo de formação inicial e continuada tem sofrido o impacto da desqualificação e do enfraquecimento (VEIGA, 2005).
Trata-se, por fim, de enriquecer processos de aprendizagem unindo-os ao novo contexto tecnológico, e não de fazer a mesma coisa que fazia antes com meios mais sofisticados (ZABALZA, 2004).

Conclusão

Em nosso tempo, a função docente é muito mais que simplesmente ensinar, muito mais do que aprender com os erros nossos e de nossos alunos. É uma função que significa compartilhar experiências, conhecimentos e, acima de tudo compartilhar todo um universo de situações que nos levarão, no futuro, a sermos um pouco melhores naquilo que fazemos, com amor, dedicação, sensibilidade e profissionalismo.

Referências Bibliográficas

BENEDITO, Vicenç; Ferrer, Virginia; Pavía, Vicente Ferreres & Ferreres, Vicente. La formación universitária a debate. Barcelona: Universidad de Barcelona, 1995.
DAVIES, J. L. The shift from teaching to learning: sigues of staffing policy arising for universities in the twenty-first century. In: Higher education in Europe, vol. XXIII (3), p. 307-316, 1998.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. São Paulo, Paz e Terra, 1996.
CHAUÍ, Marilena. Escritos sobre a universidade. São Paulo:Ed. Unesp, 2001.
IMBERNÓN, Francisco. Formação docente e profissional. São Paulo: Cortez, 2001.
OLIVEIRA, M.S. Estudo sobre a valorização das relações interpessoais, entre professor e aluno, e suas contribuições para o processo de ensino-aprendizagem da graduação do curso de biomedicina. [Monografia de Pós-Graduação]. UniCEUB/DF, 2004.
PIMENTA, Selma Garrido; ANASTASIOU, Léa das Graças Carmagos. Docência no ensino superior. São Paulo: Cortez, 2002.
PIMENTA, Selma Garrido; ANASTASIOU, Lea das Graças Camargos & CAVALLET, Valdo José. Docência no Ensino Superior: construindo caminhos. In BARBOSA, R. L. L.(org.) Formação de Educadores: Desafios  e Perspectivas. 1.ed. São Paulo: UNESP, 2003. p.267-278.
SANTOS, Boaventura de Souza. Para um novo senso comum: a ciência, o direito e a política da transição paradigmática. In: A crítica da razão indolente. Contra o desperdício da experiência. São Paulo: Cortez, 2000. v. 1.
VÁZQUEZ, Adolfo Sanchez. Filosofia da práxis; tradução de Luiz Fernando Cardoso. 2ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.
VEIGA, Ilma Passos Alencastro; ARAUJO, José Carlos S; KAPUZINIAK, Célia. Docência: a construção ético-profissional. Campinas/SP: Papirus, 2005.
ZABALZA, Miguel Antônio. O ensino universitário: seu cenário e seus protagonistas. Porto Alegre: Artmed, 2004.

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