OLIVEIRA, Marcia Silva de;
ALVES, Elioenai Dornelles; SERPA, Maria da Glória Noronha. A docência
universitária no atual contexto histórico-sócio-econômico. FACTUCiência,
Unaí: FACTU, ano VII, vol. 13, ago-dez. 2007, p. 107-115.
Artigo Original
A
Docência Universitária no Atual Contexto Histórico-Sócio-Econômico
The University Teaching in Actual
Historical-Socio-Economic Context
Marcia Silva de Oliveira
Elioenai Dornelles Alves
Maria Glória Noronha Serpa
Resumo
As transformações ocorridas
no ensino superior trouxeram problemáticas e preocupações a esse setor, no que
diz respeito às formas de ensinar e se posicionar diante da heterogeneidade de
alunos e de professores. A formação/preparação para a docência universitária,
frente a essas transformações, também tem sido objeto de atenção. À postura do
professor em sala de aula também tem sido dispensada certa atenção por parte de
alguns poucos pesquisadores, relacionadas às mudanças paradigmáticas, assim
como sua visão do contexto institucional e de como este professor nele se
insere. A visão contextualizada das práticas pedagógicas é referenciada pelos
autores no seu ambiente de trabalho, a sala de aula universitária. A partir
dessa visão chegou-se à conclusão que permitir a aproximação é fato importante
para aprendermos quem são nossos alunos, o que esperam de nós docentes
universitários e como podemos nos tornar profissionais professores e não
professores profissionais.
Palavras-chave:
ensino
superior, docência universitária,
sala de aula, mudanças paradigmáticas
Abstract
The changes in higher education brought problems and concerns in that
sector, with regard to the ways of teaching and position itself ahead of the
heterogeneity of pupils and teachers. The training/preparation for university
teaching, front to these changes, has also been the object of attention. The
attitude of the teacher in the classroom has also been provided some attention
from a few researchers, related to changes paradigmatic, as well as their
vision of the institutional context and how it fits into this professor. The
vision context of teaching practices is referenced by the authors in their
working environment, the classroom university. From this vision came to the
conclusion that allow the rapprochement is really important for our students
learn who they are, what is expected of us academics and how can we make teachers
professionals and not professional teachers.
Keywords:
higher education, university teaching, the classroom, paradigmatic changes
Introdução
Uma
mudança de paradigmas
Os tempos modernos são
marcados por mudanças profundas em todos os níveis e contextos: social,
cultural, político, econômico, ético e profissional e que incidem nas
instituições sociais e, portanto, de forma enfática na escola. Até pouco tempo,
percebiam-se essas transformações de forma incisiva nos professores e alunos do
ensino fundamental e médio, mas a explosão da freqüência dessas mudanças no
ensino superior, trazendo novos públicos à Universidade, faz também com que
esse setor do sistema de educação não fique imune a essas problemáticas.
Preocupações de “Como ensinar no
ensino superior?”, “Como encarar o novo
perfil do aluno universitário?”, entre outras, permeiam o pensamento de
todos os atores das Instituições de Ensino Superior; ou pelo menos deveriam.A
grande preocupação no ensino superior tem sido com o próprio ensino, na sua
expressão mais simples: o professor entra em sala de aula para transmitir
informações e experiências consolidadas ao longo de seus estudos e atividades
profissionais, na expectativa de que o aluno as retenha, absorva e reproduza
por ocasião das verificações de aprendizagem.
Educar não se limita a
repassar informações ou mostrar apenas um caminho, aquele caminho que o
professor considera o mais correto, mas é ajudar a pessoa a tomar consciência
de si mesma, dos outros e da sociedade. É saber aceitar-se como pessoa e saber
aceitar os outros. É oferecer várias ferramentas para que a pessoa possa
escolher entre muitos caminhos, aquele que for compatível com seus valores, sua
visão de mundo e com circunstâncias adversas que cada um irá encontrar;
entretanto, ainda se encontra muita resistência por parte de alguns docentes.
Atualmente, muitos
professores ainda estão em fase de reconhecimento e aceitação de um novo tipo
de relacionamento entre professor e aluno. Poucos são os professores que se
aventuram nesse desconhecido universo das relações humanas entre docentes e
discentes. Poucos são os que têm coragem de quebrar o paradigma mítico da
supremacia do mestre em relação ao seu discípulo; admitem não ser detentores de
“todo” o
conhecimento de sua ciência específica, e dividem com seus alunos a busca de um
mesmo conhecimento ou aprimoramento deste sem, no entanto, sentirem-se
incapazes ou inferiorizados.
O estigma criado durante
séculos sobre esse tipo de relação, que deveria ser totalmente dispensável,
hoje cai por terra, mas deixa lacunas nas mentes de alguns professores da forma
pela qual poderiam ser se houvesse uma melhor e maior observação de seus alunos
individualmente e uma maior interação com o grupo. Uma vez despidos do estigma
da não-relação com seus alunos, observam que sua postura, a forma como se
apresentam profissionalmente e, a presença de “humanidade” na
relação com eles influem de maneira extremamente positiva nesse processo.
Observando mais de perto
seu ambiente de trabalho e, conseqüentemente, os nichos presentes nele,
encontrarão uma resposta muito mais rápida e positiva à apreensão do conteúdo,
ou seja, o processo ensino-aprendizado torna-se mais eficiente e eficaz
(FREIRE, 1996; OLIVEIRA, 2004).
O
que é ser Docente Universitário
O docente é um pesquisador
que tem (ou deveria ter!) o domínio dos fundamentos teóricos e metodológicos do
seu campo de conhecimento. Deste modo, o pressuposto adotado é o de que a
docência e a pesquisa devem ser assumidas como uma missão e uma vocação
voltadas para a produção e a facilitação do conhecimento.
A docência é entendida,
enquanto carreira profissional, como sendo exercida com dedicação exclusiva, em
tempo integral, o que qualifica e potencia o saber produzido. Por conseqüência,
a docência formadora é baseada na pesquisa de alto padrão enquanto uma
experiência metódica.
Depois da análise cuidadosa
das mudanças paradigmáticas na educação, das opiniões controversas de alguns
autores e, em sua maioria das inferências convergentes de alguns outros
observa-se que a docência universitária é uma extensão contínua do conhecimento
adquirido ao largo de um grande período acadêmico aproveitado, na maioria das
vezes, mais no campo do ensino que da pesquisa (SANTOS, 2000).
Segundo PIMENTA et al.
(2003), a docência, entendida como o ensinar e o aprender, está presente na
prática social em geral e não apenas na escola. Em qualquer âmbito em que o
pesquisador/profissional atue, exercerá uma ação docente. Isso aponta para a
formação do futuro profissional, de qualquer área, como educador, como
comunicador.
Nos dias atuais, nós
docentes universitários, temos uma visão muito mais abrangente da situação
ensino/pesquisa em nossas salas de aula e em nossas aulas “práticas”. Essa
visão é um exercício instigante que nos faz refletir sobre o seu sentido e
sobre como se pode ascender a níveis em que predominem a criatividade e a
reflexão; contribui para a compreensão, numa outra perspectiva, da relação
entre teoria e prática (VÁZQUEZ, 1977).
Isso se deve, ao fato de estarmos
mais preparados para enfrentar às perguntas cada vez mais capciosas de nossos
alunos que, antigamente, limitavam-se a ser os passivos do aprendizado,
simplesmente admitindo como certo tudo que lhes era transmitido pelo docente
(CHAUÍ, 2001). Com essa mudança procuramos cada vez mais nos
auto-avaliar e aprendermos mais sobre nossa ciência e prática específica e
sobre outras (ZABALZA, 2004 apud DAVIES, 1998). As formas específicas de
práxis, nada mais são do que formas concretas, particulares, de uma práxis
total humana, graças à qual o homem como ser social e consciente humaniza os
objetos e se humaniza a si próprio" (VÁZQUEZ, 1977).
Não devemos esquecer que
uma grande parcela dos nossos alunos (e a maioria daqueles que se engajam no
processo de aprendizagem) vive em uma realidade muito diferente da que foi
vivida por nós enquanto alunos: meios de comunicação cada vez mais acessíveis,
informação em tempo real, captação de imagens via internet e muitas outras
facilidades ajudam no aprendizado mais completo das disciplinas ministradas em
sala de aula.
Deste ponto partimos para
outros dois fatores de suma importância na carreira de um docente
universitário: a qualidade de sua formação acadêmica e de seu conhecimento
(construção social e contextualizada) e, a forma como põe esse conhecimento em
prática (docência e pesquisa).
Devemos observar que uma
boa formação acadêmica induz a um grau de conhecimento elevado, e ambos, devem
contribuir para uma boa prática de ensino e pesquisa (IMBERNÓN, 2006).
Teoricamente. Não há dúvida de que a qualidade está ligada à formação, já que
ela é, certamente, a principal condição para que se progrida na qualidade
(ZABALZA, 2004).
Nossos valores enquanto
docentes universitários devem permear o contexto em que a instituição de ensino
da qual fazemos parte se insere, sem colocarmos de lado nossos valores pessoais.
Uma vez que fazemos parte da sociedade de conhecimento de uma instituição onde
o público alvo é receptivo à articulação ensino/pesquisa, temos que canalizar
nossa atenção ao aprimoramento do vínculo entre elas, devido serem interligadas
e aproximarem pessoas, instituições e comunidade.
Por outro lado, temos que
nos voltar também para a capacitação desse docente universitário que na maioria
das vezes não está preparado para essa função. Isso se explica, sem dúvida,
devido à inexistência de uma formação específica como professor universitário
(PIMENTA & ANASTASIOU, 2002 apud BENEDITO, 1995).
Alguns destes ainda estão
no tempo do ensino unidirecional, sem questionamentos e sem aplicação prática.
Os cursos que visam prover essa capacitação são ainda, em sua maioria,
elitistas; o que leva muitos profissionais que procuram essa capacitação a se
voltarem às instituições particulares e, os menos afortunados a se tornarem
auto-didatas, prejudicando, a longo prazo, o processo de ensino-aprendizagem
nas instituições de ensino superior.
A
postura do docente universitário e a relação com seus alunos
Ser docente universitário
nos dias atuais é estar em constante atualização – transformação da sociedade,
de seus valores e de suas formas de organização e trabalho e, ao avanço
exponencial da ciência (PIMENTA & ANASTASIOU, 2002) –, e não mais se
atendo à leitura de um ou dois livros por ano.
Manter-se aberto às
mudanças políticas intra-institucionais que afetam diretamente a sua postura
com relação ao dueto ensino/pesquisa e, estar atento às mudanças das políticas
públicas que irão afetar diretamente seu regime de trabalho, sem deixar esse
fato extrapolar para dentro da sala de aula.
É manter contato estreito
com seus alunos participando a eles o processo da mudança institucional como um
todo, aproveitando esse contato para observar que tipo de influência (contexto
social) exerce, se positiva ou negativa, e aprender com essa interação (FREIRE,
1996).
É, cada vez mais, tentar se
aprimorar e se integrar intensamente na sociedade do conhecimento; estimulando
diretamente seus alunos a procurarem meios de atualização dinâmicos (procurar
bibliotecas, por exemplo) sempre que houver tempo, evitando assim, pesquisas
cibernéticas na sua totalidade.
Ter participação ativa,
junto com seus pares, das reuniões que visem à melhoria da qualidade do ensino
e da pesquisa, dentro e fora da sua instituição de origem. É estar aberto a
questionamentos sobre sua disciplina específica, por parte dos seus alunos, e
procurar discutí-los de forma mais abrangente possível; ser acessível aos
alunos, o máximo possível (OLIVEIRA, 2004). Em suma, é ter coragem de vivenciar
e participar ativamente dos processos que envolvem o ensino e a aprendizagem.
Discussão
Ao analisarmos o contexto
social, observamos que com as mudanças aceleradas e os avanços tecnológicos, a
crise econômica, a organização do trabalho, as inovações produzidas nas mais
diferentes áreas e, o acentuado processo de globalização a concepção de
docência universitária vem sofrendo alterações, levando a um maior destaque
para a produção qualificada do que quantificada dos docentes universitários.
Esses são importantes
fatores na definição do espectro profissional e contribuem para o
desenvolvimento de incertezas cada vez mais constantes (VEIGA, 2005). As
instituições de ensino superior têm ministrado cursos de capacitação para seus
docentes, visando uma melhor adequação destes à nova universidade que surge e
aos novos tipos de alunos.
A formação deveria dotar o
professor de instrumentos intelectuais que possam auxiliar o conhecimento e
interpretação das situações complexas com que se depara (IMBERNÓN, 2004).
Entretanto, isso não é observado em nenhum momento desse processo formativo.
Com isso, o próprio processo de formação inicial e continuada tem sofrido o
impacto da desqualificação e do enfraquecimento (VEIGA, 2005).
Trata-se, por fim, de
enriquecer processos de aprendizagem unindo-os ao novo contexto tecnológico, e
não de fazer a mesma coisa que fazia antes com meios mais sofisticados
(ZABALZA, 2004).
Conclusão
Em nosso tempo, a função
docente é muito mais que simplesmente ensinar, muito mais do que aprender com
os erros nossos e de nossos alunos. É uma função que significa compartilhar
experiências, conhecimentos e, acima de tudo compartilhar todo um universo de
situações que nos levarão, no futuro, a sermos um pouco melhores naquilo que
fazemos, com amor, dedicação, sensibilidade e profissionalismo.
Referências
Bibliográficas
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CHAUÍ, Marilena. Escritos sobre a
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PIMENTA, Selma Garrido;
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PIMENTA, Selma Garrido;
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SANTOS, Boaventura de
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paradigmática. In: A crítica da razão indolente. Contra o desperdício da
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VÁZQUEZ, Adolfo Sanchez. Filosofia da práxis;
tradução de Luiz Fernando Cardoso. 2ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.
VEIGA, Ilma Passos
Alencastro; ARAUJO, José Carlos S; KAPUZINIAK, Célia. Docência: a
construção ético-profissional. Campinas/SP: Papirus, 2005.
ZABALZA, Miguel Antônio. O ensino
universitário: seu cenário e seus protagonistas. Porto Alegre: Artmed,
2004.
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