sexta-feira, 24 de maio de 2013

Artigo - A Docência Universitária no Atual Contexto Histórico-Sócio-Econômico

OLIVEIRA, Marcia Silva de; ALVES, Elioenai Dornelles; SERPA, Maria da Glória Noronha. A docência universitária no atual contexto histórico-sócio-econômico. FACTUCiência, Unaí: FACTU, ano VII, vol. 13, ago-dez. 2007, p. 107-115.

Artigo Original

A Docência Universitária no Atual Contexto Histórico-Sócio-Econômico

The University Teaching in Actual Historical-Socio-Economic Context

Marcia Silva de Oliveira
Elioenai Dornelles Alves
Maria Glória Noronha Serpa
Resumo

As transformações ocorridas no ensino superior trouxeram problemáticas e preocupações a esse setor, no que diz respeito às formas de ensinar e se posicionar diante da heterogeneidade de alunos e de professores. A formação/preparação para a docência universitária, frente a essas transformações, também tem sido objeto de atenção. À postura do professor em sala de aula também tem sido dispensada certa atenção por parte de alguns poucos pesquisadores, relacionadas às mudanças paradigmáticas, assim como sua visão do contexto institucional e de como este professor nele se insere. A visão contextualizada das práticas pedagógicas é referenciada pelos autores no seu ambiente de trabalho, a sala de aula universitária. A partir dessa visão chegou-se à conclusão que permitir a aproximação é fato importante para aprendermos quem são nossos alunos, o que esperam de nós docentes universitários e como podemos nos tornar profissionais professores e não professores profissionais.

Palavras-chave: ensino superior, docência universitária, sala de aula, mudanças paradigmáticas

Abstract

The changes in higher education brought problems and concerns in that sector, with regard to the ways of teaching and position itself ahead of the heterogeneity of pupils and teachers. The training/preparation for university teaching, front to these changes, has also been the object of attention. The attitude of the teacher in the classroom has also been provided some attention from a few researchers, related to changes paradigmatic, as well as their vision of the institutional context and how it fits into this professor. The vision context of teaching practices is referenced by the authors in their working environment, the classroom university. From this vision came to the conclusion that allow the rapprochement is really important for our students learn who they are, what is expected of us academics and how can we make teachers professionals and not professional teachers.

Keywords: higher education, university teaching, the classroom, paradigmatic changes


Introdução

Uma mudança de paradigmas

Os tempos modernos são marcados por mudanças profundas em todos os níveis e contextos: social, cultural, político, econômico, ético e profissional e que incidem nas instituições sociais e, portanto, de forma enfática na escola. Até pouco tempo, percebiam-se essas transformações de forma incisiva nos professores e alunos do ensino fundamental e médio, mas a explosão da freqüência dessas mudanças no ensino superior, trazendo novos públicos à Universidade, faz também com que esse setor do sistema de educação não fique imune a essas problemáticas. 
Preocupações de “Como ensinar no ensino superior?”, “Como encarar o novo perfil do aluno universitário?”, entre outras, permeiam o pensamento de todos os atores das Instituições de Ensino Superior; ou pelo menos deveriam.A grande preocupação no ensino superior tem sido com o próprio ensino, na sua expressão mais simples: o professor entra em sala de aula para transmitir informações e experiências consolidadas ao longo de seus estudos e atividades profissionais, na expectativa de que o aluno as retenha, absorva e reproduza por ocasião das verificações de aprendizagem.   
Educar não se limita a repassar informações ou mostrar apenas um caminho, aquele caminho que o professor considera o mais correto, mas é ajudar a pessoa a tomar consciência de si mesma, dos outros e da sociedade. É saber aceitar-se como pessoa e saber aceitar os outros. É oferecer várias ferramentas para que a pessoa possa escolher entre muitos caminhos, aquele que for compatível com seus valores, sua visão de mundo e com circunstâncias adversas que cada um irá encontrar; entretanto, ainda se encontra muita resistência por parte de alguns docentes.  
Atualmente, muitos professores ainda estão em fase de reconhecimento e aceitação de um novo tipo de relacionamento entre professor e aluno. Poucos são os professores que se aventuram nesse desconhecido universo das relações humanas entre docentes e discentes. Poucos são os que têm coragem de quebrar o paradigma mítico da supremacia do mestre em relação ao seu discípulo; admitem não ser detentores de “todo” o conhecimento de sua ciência específica, e dividem com seus alunos a busca de um mesmo conhecimento ou aprimoramento deste sem, no entanto, sentirem-se incapazes ou inferiorizados.  
O estigma criado durante séculos sobre esse tipo de relação, que deveria ser totalmente dispensável, hoje cai por terra, mas deixa lacunas nas mentes de alguns professores da forma pela qual poderiam ser se houvesse uma melhor e maior observação de seus alunos individualmente e uma maior interação com o grupo. Uma vez despidos do estigma da não-relação com seus alunos, observam que sua postura, a forma como se apresentam profissionalmente e, a presença de “humanidade” na relação com eles influem de maneira extremamente positiva nesse processo.
Observando mais de perto seu ambiente de trabalho e, conseqüentemente, os nichos presentes nele, encontrarão uma resposta muito mais rápida e positiva à apreensão do conteúdo, ou seja, o processo ensino-aprendizado torna-se mais eficiente e eficaz (FREIRE, 1996; OLIVEIRA, 2004).

O que é ser Docente Universitário

O docente é um pesquisador que tem (ou deveria ter!) o domínio dos fundamentos teóricos e metodológicos do seu campo de conhecimento. Deste modo, o pressuposto adotado é o de que a docência e a pesquisa devem ser assumidas como uma missão e uma vocação voltadas para a produção e a facilitação do conhecimento.
A docência é entendida, enquanto carreira profissional, como sendo exercida com dedicação exclusiva, em tempo integral, o que qualifica e potencia o saber produzido. Por conseqüência, a docência formadora é baseada na pesquisa de alto padrão enquanto uma experiência metódica.
Depois da análise cuidadosa das mudanças paradigmáticas na educação, das opiniões controversas de alguns autores e, em sua maioria das inferências convergentes de alguns outros observa-se que a docência universitária é uma extensão contínua do conhecimento adquirido ao largo de um grande período acadêmico aproveitado, na maioria das vezes, mais no campo do ensino que da pesquisa (SANTOS, 2000).
Segundo PIMENTA et al. (2003), a docência, entendida como o ensinar e o aprender, está presente na prática social em geral e não apenas na escola. Em qualquer âmbito em que o pesquisador/profissional atue, exercerá uma ação docente. Isso aponta para a formação do futuro profissional, de qualquer área, como educador, como comunicador.
Nos dias atuais, nós docentes universitários, temos uma visão muito mais abrangente da situação ensino/pesquisa em nossas salas de aula e em nossas aulas “práticas”. Essa visão é um exercício instigante que nos faz refletir sobre o seu sentido e sobre como se pode ascender a níveis em que predominem a criatividade e a reflexão; contribui para a compreensão, numa outra perspectiva, da relação entre teoria e prática (VÁZQUEZ, 1977).
Isso se deve, ao fato de estarmos mais preparados para enfrentar às perguntas cada vez mais capciosas de nossos alunos que, antigamente, limitavam-se a ser os passivos do aprendizado, simplesmente admitindo como certo tudo que lhes era transmitido pelo docente (CHAUÍ, 2001).   Com essa mudança procuramos cada vez mais nos auto-avaliar e aprendermos mais sobre nossa ciência e prática específica e sobre outras (ZABALZA, 2004 apud DAVIES, 1998). As formas específicas de práxis, nada mais são do que formas concretas, particulares, de uma práxis total humana, graças à qual o homem como ser social e consciente humaniza os objetos e se humaniza a si próprio" (VÁZQUEZ, 1977).
Não devemos esquecer que uma grande parcela dos nossos alunos (e a maioria daqueles que se engajam no processo de aprendizagem) vive em uma realidade muito diferente da que foi vivida por nós enquanto alunos: meios de comunicação cada vez mais acessíveis, informação em tempo real, captação de imagens via internet e muitas outras facilidades ajudam no aprendizado mais completo das disciplinas ministradas em sala de aula. 
Deste ponto partimos para outros dois fatores de suma importância na carreira de um docente universitário: a qualidade de sua formação acadêmica e de seu conhecimento (construção social e contextualizada) e, a forma como põe esse conhecimento em prática (docência e pesquisa).
Devemos observar que uma boa formação acadêmica induz a um grau de conhecimento elevado, e ambos, devem contribuir para uma boa prática de ensino e pesquisa (IMBERNÓN, 2006). Teoricamente. Não há dúvida de que a qualidade está ligada à formação, já que ela é, certamente, a principal condição para que se progrida na qualidade (ZABALZA, 2004).
Nossos valores enquanto docentes universitários devem permear o contexto em que a instituição de ensino da qual fazemos parte se insere, sem colocarmos de lado nossos valores pessoais.  Uma vez que fazemos parte da sociedade de conhecimento de uma instituição onde o público alvo é receptivo à articulação ensino/pesquisa, temos que canalizar nossa atenção ao aprimoramento do vínculo entre elas, devido serem interligadas e aproximarem pessoas, instituições e comunidade.
Por outro lado, temos que nos voltar também para a capacitação desse docente universitário que na maioria das vezes não está preparado para essa função. Isso se explica, sem dúvida, devido à inexistência de uma formação específica como professor universitário (PIMENTA & ANASTASIOU, 2002 apud BENEDITO, 1995).
Alguns destes ainda estão no tempo do ensino unidirecional, sem questionamentos e sem aplicação prática.  Os cursos que visam prover essa capacitação são ainda, em sua maioria, elitistas; o que leva muitos profissionais que procuram essa capacitação a se voltarem às instituições particulares e, os menos afortunados a se tornarem auto-didatas, prejudicando, a longo prazo, o processo de ensino-aprendizagem nas instituições de ensino superior.

A postura do docente universitário e a relação com seus alunos

Ser docente universitário nos dias atuais é estar em constante atualização – transformação da sociedade, de seus valores e de suas formas de organização e trabalho e, ao avanço exponencial da ciência (PIMENTA & ANASTASIOU, 2002) –,  e não mais se atendo à leitura de um ou dois livros por ano.
Manter-se aberto às mudanças políticas intra-institucionais que afetam diretamente a sua postura com relação ao dueto ensino/pesquisa e, estar atento às mudanças das políticas públicas que irão afetar diretamente seu regime de trabalho, sem deixar esse fato extrapolar para dentro da sala de aula.
É manter contato estreito com seus alunos participando a eles o processo da mudança institucional como um todo, aproveitando esse contato para observar que tipo de influência (contexto social) exerce, se positiva ou negativa, e aprender com essa interação (FREIRE, 1996).
É, cada vez mais, tentar se aprimorar e se integrar intensamente na sociedade do conhecimento; estimulando diretamente seus alunos a procurarem meios de atualização dinâmicos (procurar bibliotecas, por exemplo) sempre que houver tempo, evitando assim, pesquisas cibernéticas na sua totalidade.
Ter participação ativa, junto com seus pares, das reuniões que visem à melhoria da qualidade do ensino e da pesquisa, dentro e fora da sua instituição de origem. É estar aberto a questionamentos sobre sua disciplina específica, por parte dos seus alunos, e procurar discutí-los de forma mais abrangente possível; ser acessível aos alunos, o máximo possível (OLIVEIRA, 2004). Em suma, é ter coragem de vivenciar e participar ativamente dos processos que envolvem o ensino e a aprendizagem.

Discussão

Ao analisarmos o contexto social, observamos que com as mudanças aceleradas e os avanços tecnológicos, a crise econômica, a organização do trabalho, as inovações produzidas nas mais diferentes áreas e, o acentuado processo de globalização a concepção de docência universitária vem sofrendo alterações, levando a um maior destaque para a produção qualificada do que quantificada dos docentes universitários.
Esses são importantes fatores na definição do espectro profissional e contribuem para o desenvolvimento de incertezas cada vez mais constantes (VEIGA, 2005). As instituições de ensino superior têm ministrado cursos de capacitação para seus docentes, visando uma melhor adequação destes à nova universidade que surge e aos novos tipos de alunos. 
A formação deveria dotar o professor de instrumentos intelectuais que possam auxiliar o conhecimento e interpretação das situações complexas com que se depara (IMBERNÓN, 2004). Entretanto, isso não é observado em nenhum momento desse processo formativo. Com isso, o próprio processo de formação inicial e continuada tem sofrido o impacto da desqualificação e do enfraquecimento (VEIGA, 2005).
Trata-se, por fim, de enriquecer processos de aprendizagem unindo-os ao novo contexto tecnológico, e não de fazer a mesma coisa que fazia antes com meios mais sofisticados (ZABALZA, 2004).

Conclusão

Em nosso tempo, a função docente é muito mais que simplesmente ensinar, muito mais do que aprender com os erros nossos e de nossos alunos. É uma função que significa compartilhar experiências, conhecimentos e, acima de tudo compartilhar todo um universo de situações que nos levarão, no futuro, a sermos um pouco melhores naquilo que fazemos, com amor, dedicação, sensibilidade e profissionalismo.

Referências Bibliográficas

BENEDITO, Vicenç; Ferrer, Virginia; Pavía, Vicente Ferreres & Ferreres, Vicente. La formación universitária a debate. Barcelona: Universidad de Barcelona, 1995.
DAVIES, J. L. The shift from teaching to learning: sigues of staffing policy arising for universities in the twenty-first century. In: Higher education in Europe, vol. XXIII (3), p. 307-316, 1998.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. São Paulo, Paz e Terra, 1996.
CHAUÍ, Marilena. Escritos sobre a universidade. São Paulo:Ed. Unesp, 2001.
IMBERNÓN, Francisco. Formação docente e profissional. São Paulo: Cortez, 2001.
OLIVEIRA, M.S. Estudo sobre a valorização das relações interpessoais, entre professor e aluno, e suas contribuições para o processo de ensino-aprendizagem da graduação do curso de biomedicina. [Monografia de Pós-Graduação]. UniCEUB/DF, 2004.
PIMENTA, Selma Garrido; ANASTASIOU, Léa das Graças Carmagos. Docência no ensino superior. São Paulo: Cortez, 2002.
PIMENTA, Selma Garrido; ANASTASIOU, Lea das Graças Camargos & CAVALLET, Valdo José. Docência no Ensino Superior: construindo caminhos. In BARBOSA, R. L. L.(org.) Formação de Educadores: Desafios  e Perspectivas. 1.ed. São Paulo: UNESP, 2003. p.267-278.
SANTOS, Boaventura de Souza. Para um novo senso comum: a ciência, o direito e a política da transição paradigmática. In: A crítica da razão indolente. Contra o desperdício da experiência. São Paulo: Cortez, 2000. v. 1.
VÁZQUEZ, Adolfo Sanchez. Filosofia da práxis; tradução de Luiz Fernando Cardoso. 2ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.
VEIGA, Ilma Passos Alencastro; ARAUJO, José Carlos S; KAPUZINIAK, Célia. Docência: a construção ético-profissional. Campinas/SP: Papirus, 2005.
ZABALZA, Miguel Antônio. O ensino universitário: seu cenário e seus protagonistas. Porto Alegre: Artmed, 2004.

Artigo - Iridologia como método pré-diagnóstico




Iridologia como método pré-diagnóstico
David Maurício Rodrigues
Carlos Fernando dos Santos
INTRODUÇÃO

As formas de se diagnosticar doenças na medicina ocidental têm passado por influências históricas ao longo do tempo. Na Idade Média, por exemplo, Galeno (122 a 199 D.C.), anatomista, fisiólogo, terapeuta e um dos médicos mais influentes na história da medicina ocidental trouxe importantes contribuições na concepção diagnóstico-terapêutica, as quais perduraram por quase toda a Idade Média. Nessa concepção, as bases do diagnóstico incluiam o conhecimento do estado do indivíduo antes de adquirir a doença, seu temperamento, o tipo e a proporção da alimentação, o estilo de vida e ainda as condições ambientais e a época do ano em que a pessoa se encontrava (BARROS, 2002).
No século XVII René Descartes, renomado filósofo e cientista francês considerado por sua obra, um dos responsáveis pela revolução científica moderna e pela combinação entre racionalidade e experiência passa a negar a visão antiga e medieval (ZASLAVSKY, 2009).
Descartes se instala na Holanda entre 1629 a 1649 e se interessa pelo estudo da anatomia e da fisiologia com o objetivo de construir uma medicina diferente da praticada em sua época, que tinha bases em Hipócrates, Aristóteles e Galeno. Surge então o modelo cartesiano na medicina, que passa a utilizar como critério de acesso ao paciente a “lógica maquínica”, ou seja, nessa perspectiva, o ser humano é tratado pelo médico como se fosse uma máquina. Dessa forma, o médico constrói o diagnóstico da doença a partir de informações das partes para chegar à compreensão do todo (MONTARROYOS, 2009).
De acordo com Liboni; Siqueira (2009), atualmente vigora na medicina um modelo fielmente herdado da ciência cartesiana, a qual tem a necessidade de dividir para conhecer. Seguindo esse sistema, o médico desde o início de sua graduação aprende por meio de um método analítico, em que divide o objeto de estudo em várias partes. Assim, o conhecimento das partes é exaustivamente considerado até que se reconstrua o todo.
Apesar de o sistema cartesiano estar entronizado nas práticas diagnósticas atualmente, paralelamente veicula a chamada medicina holística ou integrativa. O médico holístico parte da observação e sensibilização para diagnosticar a doença, vista como um desequilíbrio geral e para tratá-la trabalha com ações no corpo com homeopatia, fitoterapia, acupuntura, psicoterapia, energéticos e diferentes formas de reequilíbrio vital. Nesse paradigma adota-se a totalidade corpo e espírito e extrapola-se a dimensão bioquímica e exames exaustivos tão comuns na medicina ocidental (MATTOS, 2012).
A esse respeito, a filosofia de Platão corrobora a linha de ação da medicina holística, já que o filósofo considerava a saúde humana de forma universal e não compartimentada. Para ele, a saúde do corpo era resultado de sua constituição e natureza, sendo que as bases da saúde contemplam a alma e corpo e nunca componentes separados (VASCONCELOS; FREITAS, 2012).
De acordo com Fonseca et al. (2006) a medicina holística nos remete a uma redescoberta do passado, longe de ser uma abordagem inovadora.
Dentre as práticas vinculadas à medicina holística, pode-se destacar a iridologia ou a irisdiagnose. A iridologia “é a ciência da leitura da condição do tecido por meio da íris do olho. É possível, mediante esta ciência, adquirir um insight do grau ou dimensão daquilo que ocorre no organismo” (KHALSA, 2009, p. 13).
 De acordo com Batello (2009), a iridologia não deve ser vista como um meio de se diagnosticar, mas não se pode negar que ela seja “o melhor método propedêutico” existente para facilitar e ajudar na elaboração do diagnóstico. Desse modo, em face da dificuldade que os médicos enfrentam para proceder a um diagnóstico, em decorrência de diversos fatores e ambientes a que os organismos estão expostos, a iridologia apresenta-se como um agente facilitador para se chegar a uma avaliação do quadro de saúde de um indivíduo (BATELLO, 2009).
Com a utilização da técnica iridológica revela-se a existência de inflamações, seus locais no corpo e a gravidade de tais inflamações. De maneira geral, a iridologia revela “a constituição física do corpo, debilidades inerentes e a interdependência entre todas as suas partes” (p. 13). A íris é uma extensão do cérebro, concectada a todos os órgãos e tecidos do corpo e torna-se uma espécie de tela de televisão em miniatura que revela a condição das áreas mais remotas do organismo (KHALSA, 2009).
Salles (2006) argumenta que a proposta da iridologia ou irisdiagnose é a detecção da predisposição do indivíduo a determinadas patologias, auxiliando na identificação precoce de grupos de riscos.
Valverde; Azevedo (1994), afirmam que a iridologia não pretende diagnosticar no sentido usual do termo. Não indica, por exemplo, se uma pessoa está com pneumonia causada por pneumococos ou com diabetes, mas pode fornecer uma informação geral do estado de toxidade e de circulação, sugerindo quais órgãos estão mais afetados e em que local a doença poderá se manifestar.
Nas palavras de Johnson (1992) o “o olho é o meio através do qual vemos toda a vida à nossa volta e um dos instrumentos através do qual podemos conhecer a nossa vida interior” (p.18). As cores, formas e padrões existentes nos olhos são capazes de revelar uma verdade única, sendo que cada linha existente no olho tem sua razão de ser (JOHNSON, 1992).
Dessa forma este trabalho pretende apresentar a técnica da iridologia como forma de auxiliar e complementar o diagnóstico de forma positiva na identificação e possível prevenção de patologias diversas, considerando que se trata de uma ferramenta a mais na identificação de doenças, atuando como uma medicina preventiva.

MEDICINA CARTESIANA

DEFINIÇÃO

De acordo com Montarroyos (2009) a lógica cartesiana, fundamentada no método cartesiano, criado por René Descartes, utiliza como critério de acesso ao paciente a “intuição maquínica”. Nessa perspectiva, o ser humano é tratado pelo médico, por analogia, como se fosse uma máquina.
 Parte-se então, de realidades conhecidas e de fácil compreensão para explicar o funcionamento do organismo humano. Descartes relacionava, por exemplo, o corpo à máquina, comparando nervos a tubos de máquinas, tendões e músculos a engrenagens que auxiliam o movimento.
De acordo com Koifman (2001) desde que o método cartesiano passou a dominar o pensamento científico, todas as coisas se converteram em um sistema mecânico, constituídas de objetos separados e cada vez mais reduzidas.
Dessa forma, o médico desenvolve suas atividades de forma metódica e utilizando sempre a intuição e a dedução das ideias. Assim, constrói o diagnóstico da doença a partir de informações do elementar com o objetivo de alcançar sempre uma compreensão do complexo. Começa-se, então, do conhecimento relativo para posteriormente chegar-se ao universal (MONTARROYOS, 2009).
Para Koifman (2001), essa concepção mecanicista do organismo humano traduz-se em uma abordagem técnica da saúde, reduzindo a doença a um defeito mecânico de partes do corpo que deve ser consertado pelo médico por meio de tecnologias sofisticadas.
Segundo Koifman (2001) a influência do paradigma cartesiano na medicina teve como resultado um modo de abordagem, que trata o corpo humano como uma máquina complexa chamada de “modelo biomédico”, tido como o alicerce da medicina científica moderna. Segundo a autora essa máquina possui partes que se inter-relacionam e obedecem a leis perfeitas. Essa máquina, porém, é imperfeita e sempre terá problemas que deverão ser constatados somente por especilalistas. Segundo essa visão, as doenças são resultado de processos degenerativos do corpo, de agentes físicos, químicos ou biológicos que o invadem ou de falhas da mecânica do organismo. Assim, as doenças só podem ser detectadas por métodos científicos, fazendo com que o profissional se afaste cada vez mais do paciente, voltando-se para os resultados de exames.

HISTÓRICO

A maior parte da obra cartesiana foi composta na Holanda, país onde Descartes entrou em contato com a medicina. O país pode ser considerado o berço do cartesianismo, onde médicos se apropriaram das ideias cartesianas para construir a base do conhecimento (DONATELLI, 2012).
Ao se instalar na Holanda (1629 a 1649) Descartes se interessou pelo estudo da anatomia e da fisiologia com o objetivo de construir uma medicina diferente da praticada em sua época, que tinha bases em Hipócrates, Aristóteles e Galeno.
Descartes então, passou a negar a tradição aristotélica, que considerava os três pilares da alma: vegetativo, sensitivo e intelectivo como responsáveis pela ordenação e atividade da vida e pelo funcionamento do organismo. Assim, a dedução passa a não ter importância no diagnóstico e cede lugar à experiência, observação e construção de hipóteses (DONATELLI, 2012).
Ao considerar a concepção cartesiana de corpo Descartes distanciou-se da tradição mantida até então na medicina. No novo paradigma, o procedimento pautado na dedução das leis da natureza não mais seria enfatizado e passou-se a enfatizar a experiência. As causas surgem a partir da observação e a medicina passa a servir-se da dissecação de corpos animais (DONATELLI, 2012).
Para Montarroyos (2009), a partir de meados do século XX, (1950) verifica-se uma luta dentro do próprio paradigma cartesiano envolvendo duas vias de acesso ao problema do paciente: o Humanismo e o Tecnologicismo.
Na medicina Cartesiana Humanista existe uma relação intuitiva do médico em relação ao problema do paciente. O médico realiza hipóteses com base no entendimento maquínico do paciente, o que ocorre por meio do contato humano entre estes realizado no consultório. Assim, ocorre a localização e abordagem do problema físico do paciente com base em evidências obtidas por meio da analogia maquínica em que o toque, a altura da voz, a postura corporal do paciente, entre outros servem de referenciais par[i]a o médico (MONTARROYOS, 2009).
Nesse processo, o médico separa o universal do particular (relativo) aumentando as informações por meio da anamnese. Dessa forma, é conferida maior importância ao diagnóstico maquínico do que ao paciente. Por outro lado, o modelo Tecnológico na medicina cartesiana defende o uso da racionalidade instrumental das máquinas para acessar o problema físico do paciente. Nesse sentido, não se usa mais a intuição, mas dados provenientes de exames especializados detalhados do corpo a partir do uso da tecnologia digital (MONTARROYOS, 2009).
Montarroyos descreve as diferenças entre os modelos Tecnológico e Humanista na medicina cartesiana ressaltando que no modelo tecnologico a experiência entre medico e paciente e substituída por instrumentos laboratoriais. Por outro lado, os humanistas cartesianos valorizam a investigação com base no contato pessoal com o paciente para se chegar às causas e tratar a doença (MONTARROYOS, 2009).
Para o autor, na década .de 1980 existe o conflito na comunidade médica cartesiana entre a sensibilidade e a tecnologicidade, sendo que a primeira defende a demora do atendimento ao paciente e a sensibilidade e intuição do médico e a segunda prima pela máxima objetividade e tecnicidade, sendo que ambas as visões decorrem da visão maquínica do corpo, em que a doença é a síntese de problemas descobertos pelo estudo das partes.
A partir de 1980 surge na Inglaterra a Medicina baseada em evidências, que refuta o cartesianismo anterior (clássico). Nesse novo modelo, a produção do saber e a relação médico-paciente é dominada pela tecnologia (MONTARROYOS, 2009).
Segundo Koifman (2001) a anatomia proporcionou uma mudança na maneira de conceber a máquina humana. A partir daí a prática médica passou a ter como centro, não mais a vida, mas a máquina humana (forma humana). Na prática clínica, o corpo humano passou a ser visto como sede de doenças e as doenças como entidades patológicas.
A partir do século XIX, a anatomia clínica tornava possível a aprendizagem das doenças por meio de corpos mortos ao invés de corpos vivos ou mesmo doentes. “A saúde passou a ser vista como ausência de doença, sendo que a cura significa a eliminação dos sintomas” (p.  ) Essa visão de doença remonta a cerca de três séculos, sendo que o médico cada vez mais se afastou do doente e  apegou-se a discursos teóricos (KOIFMAN, 2001).

A MEDICINA HOJE

De acordo com Liboni; Siqueira (2009), atualmente vigora na medicina um modelo fielmente herdado da ciência cartesiana, a qual tem a necessidade de dividir para conhecer.
Esse modelo foi inaugurado no século passado por Abraham Flexner, autor cujo relatório trouxe mudanças no sistema de ensino médico norte-americano e entronizou o modelo cartesiano como base no ensino da medicina.
Seguindo esse sistema, o médico desde o início de sua graduação aprende por meio de um método analítico, em que divide o objeto de estudo em várias partes. Assim, o conhecimento das partes é exaustivamente considerado até que se reconstrua o todo. Porém, nem sempre essa união das partes ocorre, dada a dificuldade de se caminhar entre os diagnósticos etiológico, anatômico e sindrômico tendo como guia somente o raciocínio clínico.
A medicina praticada atualmente tem como característica a separação entre corpo e mente e o princípio geral de que é necessário dividir o ser humano em partes para melhor conhecê-lo, ou seja, conhecendo as partes, conhece-se o todo.
Liboni; Siqueira (2009) explicam que os profissionais passaram a se aprofundar no conhecimento das partes e se esqueceram do todo. Outra alteração ocorrida na medicina hoje é na relação médico-paciente. Até meados do século passado um médico cuidava de um paciente, entretanto, com a proliferação das especialidades atualmente existem inúmeros médicos para cuidarem de apenas um paciente.
Sobre a relação médico-paciente, Koifman (2001) relata que na medicina atual o profissional valoriza mais seu desempenho técnico do que as queixas dos pacientes, cuja liberdade de se expressar livremente geralmente sofre limitações. Nesse sentido, a formação médica distancia cada vez mais o profissional do respeito ao desejo do paciente, levando-o a cometer erros ao se considerar “dono do saber” e não ouvir a opinião do “dono do corpo”.
Há necessidade, portanto, de médicos generalistas, que conheçam seu paciente como um todo, ou seja, que cuide do indivíduo doente e não da doença do indivíduo.
De acordo com os autores, há necessidade de se abandonar o modelo cartesiano e reconhecer o ser humano como sum sistema complexo que tem relação com o meio ambiente e com outros seres humanos. Nesse sentido, torna-se desnecessário descrever todos os sistemas e órgãos se não se pode integrar e organizá-los. A medicina, que na sua origem partia do relacionamento intersubjetivo, atualmente está presa a variáveis bioquímicas. Os médicos subestimam as manifestações de subjetividade dos pacientes e a leitura de dados fornecidos por equipamentos norteiam a rotina dos profissionais.
Nesse modelo de medicina, o paciente permanece o tempo todo quieto e cheio de dúvidas sobre seu estado de saúde, não havendo espaço para a sua participação como sujeito (LIBONI; SIQUEIRA, 2009).

DIAGNÓSTICO COMPLEMENTAR

Segundo Bontempo (1994) pode-se dizer que o diagnóstico é a parte mais importante da Medicina, já que o tratamento a ser aplicado para determinada enfermidade vai depender dele. Para o autor, o diagnóstico torna possível ao médico o conhecimento da situação e da condição do organismo para posterior conduta terapêutica.
De acordo com Bontempo (1994) desde a Antiguidade os métodos de diagnóstico utilizados têm sido praticamente os mesmos, sendo modificados com o advento da medicina moderna, que deu origem a novas formas de diagnosticar.
O autor revela que o diagnóstico está diretamente relacionado à filosofia médica que se adota. Dessa forma, para a medicina antiga e natural ou holística, valorizam-se as condições do organismo e o doente, enquanto que na medicina tecnológica atual o mais importante é o conhecimento da doença. Segundo o autor, a medicina holística não se opõe ao uso das tecnologias modernas de diagnóstico, como o raio X, a tomografia, os exames laboratoriais, entre outros, contudo, utiliza-se desses métodos quando realmente necessários em situações emergenciais.

A MEDICINA HOLÍSTICA, INTEGRATIVA OU COMPLEMENTAR COMO MÉTODO DE DIAGNÓSTICO

Apesar de o sistema cartesiano estar entronizado nas práticas diagnósticas atualmente, paralelamente veicula a chamada medicina holística, integrativa ou complementar. O médico holístico parte da observação e sensibilização para diagnosticar a doença, vista como um desequilíbrio geral e para tratá-la trabalha com ações no corpo com homeopatia, fitoterapia, acupuntura, psicoterapia, energéticos e diferentes formas de reequilíbrio vital. Nesse paradigma adota-se a totalidade corpo e espírito e extrapola-se a dimensão bioquímica e exames exaustivos tão comuns na medicina ocidental (MATTOS, 2012).
A esse respeito, a filosofia de Platão corrobora a linha de ação da medicina holística, já que o filósofo considerava a saúde humana de forma universal e não compartimentada. Para ele, a saúde do corpo era resultado de sua constituição e natureza, sendo que as bases da saúde contemplam a alma e corpo e nunca componentes separados (VASCONCELOS; FREITAS, 2012).
De acordo com Fonseca et. al. (2006) a medicina holística nos remete a uma redescoberta do passado, longe de ser uma abordagem inovadora.
Para Silva et al (2011), essa nova abordagem, também chamada de Medicina Alternativa Complementar tem sido estudada e praticada em todo o mundo. De acordo com os autores, apesar de ainda existirem preconceitos relacionados a essas práticas, o que tem afastado muitos profissionais de realizarem terapias alternativas, um número cada vez maior de médicos tem recomendado a seus pacientes a utilização dessa medicina.
É possível verificar ações que unem técnicas da medicina tradicional e da complementar em locais que se estendem desde os Estados Unidos até aos Emirados Árabes. A OMS (Organização Mundial da Saúde) tem disponibilizado o por meio de site o acesso a alguns centros de pesquisa e atendimento conjunto entre as técnicas (SILVA et al, 2011).
Dados revelam que existe uma demanda crescente por profissionais da medicina complementar, holística. Nos EUA, por exemplo, o número de consultas com “Terapeutas Holísticos” já supera em 30% as realizadas com os médicos tradicionais. Ademais, atualmente a disputa pelo mercado tem feito com que outras profissões passem a incorporar essas práticas holísticas, tentando monopolizá-las como exclusividade sua (VIEIRA FILHO, 2004).
No Brasil, os estados do Amapá e Rio de Janeiro já estão aos poucos implantando o uso das Terapias Naturais. No Amapá, desde 2007, com a Lei Estadual n. 1069, de 21 de março, já se pratica no CRTN – Centro de Referência em Tratamento Natural do SUS, por meio de atendimentos e serviços ambulatoriais. No Rio de Janeiro, desde 2009, a Lei n. 5471, de 10 de junho, criou o Programa de Terapia Natural (SILVA et al, 2011).
De acordo com Silva et al (2011), a Lei Municipal de São Paulo, n. 13717, de 08 de janeiro de 2004, define como Terapias Naturais todas as práticas que promovem saúde e prevenção de doenças a partir da utilização de recursos naturais. Podem-se destacar uma série de terapias que se incluem nessa categoria, tais como: massoterapia, fitoterapia, acupuntura, terapia floral, geoterapia e a iridologia, entre outras.
Varella (2005) ao discorrer sobre o profissional que pratica as terapias naturais (naturólogo), apresenta seu campo de atuação descrevendo-o como um profissional que trabalha com a recuperação da saúde física, emocional, psíquica, ambiental, cultural e social, possuindo uma visão integrada e global do ser humano. Segundo o autor, esse profissional identifica problemas de saúde primários e utiliza-se de recursos naturais por meio de técnicas e terapias, de acordo com cada situação de saúde.
De acordo com Bontempo (1994), a medicina natural integral e a medicina holística utilizam os chamados “microssistemas holísticos” ou áreas do corpo humano em seu intuito de conhecer o doente e seu organismo. Esses microssistemas representam o conjunto geral do corpo e das suas funções mais importantes, como é o caso de alguns métodos como a Iridologia, que tem por base o estudo da íris, o diagnóstico auricular, que utiliza o pavilhão auricular, o Do-in e a Reflexologia, por meio da planta dos pés, a Fisiognomia, por meio dos sinais da face e da forma do corpo, a Bioenergética, a pulsologia acupuntural , a ayurvédica entre outros.
Bontempo (1994) revela que o aspecto da língua e das unhas, a composição química dos fios de cabelo também são meios utilizados pela medicina holística, como meio de se chegar ao conhecimento do organismo.
Paralelamente a esses métodos, também procura-se conhecer outros aspectos do doente fazendo-se uma investigação sobre seus humores, secreções, sono, apetite, sexualidade, memória, aspecto e odor das fezes, da urina e do fluxo menstrual, do hálito, da qualidade do suor. Esses sinais, apesar de serem negligenciados atualmente pela medicina tradicional, são considerados para a medicina holística como indicadores indispensáveis da condição de saúde do paciente. Procura-se paralelamente, ensinar a paciente o conhecimento do seu próprio organismo, por meio do autodiagnostico (BONTEMPO, 1994).